Trabalhos escritos por candidatos ao longo da formação analítica no IJUSC, apresentados à Diretoria de Ensino a cada semestre. Busque por tema, autor ou palavra do texto.
Um convite à ousadia poética
A partir da frase de Jung “o mundo do poeta é o mundo dos problemas resolvidos”, o trabalho propõe o olhar poético como possibilidade de elaboração psíquica. Escrito no primeiro ano da pandemia, parte da experiência de um luto coletivo — o luto por um mundo presumido que deixou de existir — para perguntar como seguir vivendo em meio a perdas. Aproxima a criança, o louco e o gênio pela proximidade com o inconsciente, e propõe a criação poética como forma de rearranjar a realidade e acessar o que ainda não tem nome.
O legado de Carl Gustav Jung: um novo paradigma para a compreensão da alma humana
Apresenta a Psicologia Analítica como paradigma, no sentido que Thomas Kuhn deu ao termo, e não apenas como mais uma abordagem entre as disponíveis na clínica. Percorre a formação do pensamento de Jung desde as fases psiquiátrica e psicanalítica, mostrando como sua história de vida se entrelaça com a gênese da obra, e o contrapõe ao paradigma cartesiano que separa mente e corpo. Escrito no primeiro semestre da formação, traz a perspectiva de quem está justamente entrando nesse campo — e recolhe a advertência de Jung de que nada seria mais incomensurável do que medir a realidade anímica pelos padrões da consciência.
O caminho da (trans)formação
Sobre o que acontece com quem entra na formação analítica antes mesmo de atender alguém. Parte do processo seletivo — em que a escrita da própria biografia obriga a revisitar a infância, a adolescência e acontecimentos anteriores ao próprio nascimento — e do seminário inicial sobre a biografia de Jung, que constrói a teoria a partir das experiências pessoais mais intensas. Discute por que a análise pessoal do terapeuta não é formalidade: identificações inconscientes e complexos não investigados podem se tornar presença sombria na prática clínica, e o analista que não separa a própria história da do paciente projeta nele o que não resolveu.
O movimento de regressão e progressão da libido no ato criativo
Investiga que dinâmica psíquica mobiliza o processo criativo e o que ela tem a ver com o equilíbrio mental. Percorre o conceito junguiano de libido como energia vital e o movimento entre progressão — o esforço de adaptação ao mundo, que exige uma consciência dirigida e unilateral, obrigando a abrir mão da atitude afetiva — e regressão, o recuo em que a alma desperta. Toma como fio condutor o poema “O encontro” e a relação de Jung com a arte: ele, que dizia não se considerar artista, recorria ao próprio fazer artístico nos momentos mais difíceis da vida.
Idiomaterno: o entorno de dentro para fora no contorno
Toma emprestado o termo “idiomaterno”, encontrado num documentário exibido no Museu da Língua Portuguesa, para pensar a língua pelo duplo aspecto do arquétipo materno: geradora e cerceadora. De um lado, a língua constitui a personalidade junto com família, cultura e momento histórico — pensamos, sentimos e criamos em português. De outro, a palavra é limitada e limitadora, restringindo o pensar a signos e regras preestabelecidos. A partir dessa tensão, considera a poesia e o entrelaçamento inusual das palavras como forma de experienciar a linguagem enquanto símbolo vivo.
A culpa como um caminho para o processo de individuação
Sobre um sentimento com que o terapeuta se defronta todos os dias: a culpa que às vezes não nos pertence e mesmo assim carregamos, e a que nos pertence e negamos por não estarmos em condições de assumi-la. Retoma a discussão junguiana sobre bem e mal em chave empírica — o mesmo acontecimento pode ser devastador para um e indiferente para outro — e examina a culpa tanto voltada contra si quanto atribuída a outrem, com a vitimização e o desejo de vingança que a acompanham. Toma o mito de Pandora como imagem central, com atenção ao gesto de fechar a caixa a tempo de deixar a esperança dentro.
O sacrifício do analista: uma reflexão à luz da Psicologia Analítica
Sobre o que o analista abdica para que a transformação do paciente seja possível — não uma renúncia literal, mas o despojamento do ego que o torna facilitador do processo alheio. Percorre o sentido do sacrifício desde os rituais coletivos, passando por pesquisas antropológicas que associam o sacrifício humano a sociedades mais hierárquicas, até a formulação de Jung de que no sacrifício o consciente renuncia à posse e ao poder em favor do inconsciente, liberando energia. Aproxima o tema da individuação e do arquétipo do herói: morrer para velhas formas de ser para que o Self possa se manifestar.
A análise junguiana, o ato confessional e suas convergências
Aproxima a confissão, prática religiosa do cristianismo, da primeira fase da análise junguiana — que Jung chamou justamente de confissão — para investigar o que há de comum entre as duas práticas no alívio do sofrimento psíquico. Parte da observação de Jung de que segredo e contenção são danos aos quais a natureza reage por meio da doença, e percorre a relação entre persona e sombra: os conteúdos que precisam ser ocultados para dar conta dos papéis sociais. Recolhe também a posição de Jung de recomendar a confissão e os sacramentos a pacientes católicos praticantes, e a partir daí discute a importância de incluir conflitos religiosos no trabalho analítico.
Aquarela da Psique: um esboço
Traça paralelos entre a pintura em aquarela e a Psicologia Analítica, tomando o próprio fazer artístico como analogia do processo psíquico. Pintar com aquarela exige render-se aos pigmentos que se revelam na água: quanto mais se tenta dominá-la, mais fugidia ela se torna. A partir daí, percorre o branco do papel como representação da luz, a paciência que a técnica exige, e a ideia de recorrer às vias úmidas em tempos áridos para fertilizar o que secou — a transição entre claro e escuro se dá de forma mais fluida quando se tem menos controle.
Um olhar para a complexidade dos conflitos interpessoais
Parte de três perguntas sobre os desencontros que atravessam vínculos familiares e de amizade: qual a natureza desses conflitos, se o diálogo carregado de emoção comunica tanto quanto o silêncio, e o que se aprende ao enfrentá-los. Percorre a distinção entre inconsciente pessoal e coletivo e chega à noção de complexo — quando ativado, ele nos tem, e não o contrário. Examina a discórdia como elemento projetivo: quem não resolve as próprias questões costuma depositar a responsabilidade no outro, criando ambiente hostil, e recolhe a formulação de Jung de que quem menos conhece seu lado inconsciente é quem mais é influenciado por ele.
Entre vozes e silêncios: a música como espelho da alma
Sobre a música como experiência que toca camadas do ser inacessíveis à racionalidade — não sabemos explicar por que certa melodia nos atravessa de um jeito e outra não. Percorre a concepção junguiana de alma como função intermediária entre o sujeito consciente e as profundezas do inconsciente: não um conceito fixo nem algo que se possui, mas processo dinâmico ligado ao mesmo tempo ao corpo, ao instinto e ao sagrado. A partir daí, aproxima a escuta musical da anima e do animus, e do modo como essas imagens arquetípicas se formam a partir da experiência com as figuras parentais.
Oficina de Colagem: cortar e colar — forma e conteúdo
Apresenta a colagem como técnica expressiva no contexto psicoterapêutico, a partir da afirmação de Jung de que a expressão elaborada do estado de ânimo é imagem dos conteúdos e tendências do inconsciente que se congregam — e de que importa menos o resultado tecnicamente satisfatório do que deixar campo livre à fantasia. Descreve como a colagem recorta e rearranja indícios da psicodinâmica da pessoa, e em que situações clínicas ela se mostra útil: no início do processo, com quem traz pouco conteúdo na fala, quando há carga afetiva sem contorno, ou diante de um funcionamento evitativo ou enrijecido.
Autossuficiência e interdependência como premissas do processo de individuação
Parte da premissa junguiana de que a personalidade quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade — e de que resistir a esse desenrolar tende a produzir sofrimento, porque o inconsciente compensa a unilateralidade pelo princípio da enantiodromia. Percorre o “conhece-te a ti mesmo” do oráculo de Delfos como tarefa para a vida inteira, e examina a tensão entre bastar-se e precisar do outro. Chega às formas concretas de dependência, financeira e emocional, incluindo as situações em que alguém economicamente estável não consegue romper relações abusivas.
Trilhando o caminho dos sonhos
Sobre um terreno em que a única coisa certa é a incerteza — e sobre a advertência de Jung ao intérprete de sonhos: não queira entender, não seja precipitado. Parte de uma prática pessoal de dezesseis anos de registro dos próprios sonhos ao acordar, observando a relação deles com os acontecimentos da vida desperta, para investigar por que a análise dos sonhos é um dos pilares da Psicologia Analítica. Percorre a função compensatória, o sonho recorrente como fenômeno que insiste até ser ouvido, e a necessidade de um ego estruturado para receber esses conteúdos sem invasões desastrosas.
Alquimia e colagem: um ensaio
Aproxima a colagem da Alquimia, tomando o gesto de recortar e juntar como operação análoga ao opus alquímico. Parte da observação de que imagens já prontas funcionam como receptáculo de projeções, diminuindo as exigências estéticas e a interferência da consciência egoica — o abandono da imagem perfeita abre campo para o que ainda é desconhecido. Retoma a noção de religio como atitude de demorar-se e entregar-se à tarefa, e chega à questão do todo e da parte, com Gregório de Matos: a cada nova junção forma-se um todo que logo vira parte de outro, e a leitura do espaço gráfico nunca se esgota.
A relação entre a procrastinação, o tempo e o processo criativo: um olhar junguiano
Sobre adiar. Parte da constatação de que todos estamos sujeitos à procrastinação, e recorre ao mito de Adão e Eva como metáfora do desenvolvimento da consciência — o Éden como totalidade inconsciente, e a expulsão como o preço de saber. A partir daí distingue dois sentidos do adiamento: visto pelo ego, em estado de vigília, procrastinar tem conotação negativa, de fuga e preguiça; mas reservar tempo para as imagens, os sonhos e os sintomas é uma procrastinação voltada para a alma. Discute ainda o peso do perfeccionismo e o que a formação escolar e profissional faz com a nossa tolerância às próprias imperfeições.
O sonho no espaço analítico: um diálogo com o inconsciente
Continuação do trabalho sobre sonhos, agora voltado ao que acontece quando o paciente traz os conteúdos oníricos para dentro do setting. Parte da afirmação de Jung de que o sonho fornece a maior parte do material empírico para a exploração do inconsciente, e discute por que a linguagem da alma é imagética e não verbal — motivo pelo qual sua mensagem alcança tanto o erudito quanto o analfabeto. Percorre a distinção entre o símbolo e o signo, a necessidade das associações pessoais do sonhador, e os casos em que só o recurso à alquimia e à mitologia permite traduzir os símbolos constelados.
Lançar continente ao mar
Sobre o que fazer quando o conflito não cede pela razão. Parte da imagem do cabo de guerra — a tensão entre opostos que nem sempre é lúdica e às vezes denuncia a violência da batalha — e da formulação de Jung de que é a essa tensão que devemos a existência da consciência, os problemas sendo o presente de grego da civilização. A partir do texto sobre a função transcendente, o trabalho se volta às funções ditas irracionais, sensação e intuição, e à entrega ao corpo e ao movimento desse continente pessoal que se habita do nascimento à morte.
O perdão como uma possibilidade de transformação de si, do outro e do mundo
Abre com Mandela dizendo que, se não deixasse a amargura para trás ao sair da prisão, continuaria preso. A partir daí trata das feridas que não são físicas, mas psíquicas — lutos, separações, conflitos que quase sempre envolvem outras pessoas. Percorre a premissa junguiana de que não nascemos tábula rasa, mas como individualidade potencial, com a imagem da semente que traz todas as possibilidades da árvore sem que a árvore esteja nela. Discute por que um mesmo acontecimento devasta uma pessoa e passa por outra, e chega aos complexos e à natureza dos símbolos, que têm potencial curativo mas também podem ser destrutivos.
A análise junguiana: uma obra alquímica
Toma a análise como operação alquímica, a partir da frase de Jung de que o verdadeiro segredo não age ocultamente, mas apenas usa uma linguagem secreta. Percorre o paralelo entre a transformação da matéria em ouro e o processo de individuação, e o lugar do sigilo na relação terapêutica — os sonhos acontecem em silêncio e intimidade, e guardam segredos que só se decifram com familiaridade com o mundo arquetípico. Chega às operações alquímicas como imagens de momentos clínicos: a solutio, em que o ego rígido se dissolve e vêm o choro, o arrependimento e a culpa, é onde a pessoa começa a conhecer a própria sombra.
A alquimia como metáfora do processo de individuação
Nasce do semestre em que a formação dedica um lugar de destaque ao estudo da alquimia — e da constatação, dita logo de início, de que ali não há linha de chegada. Percorre as origens incertas do termo, do egípcio al-kymia, a terra negra, passando pela filosofia hermética e por Hermes Trismegisto. Chega à razão pela qual Jung preferiu a alquimia ao gnosticismo: encontrou nela um elo entre o gnosticismo antigo e a psicologia moderna. Examina os estágios do opus — nigredo, albedo e rubedo — e a observação de Jung de que a redução de quatro para três cores se deu por motivos simbólicos internos, não externos.
A angústia da última sessão
Sobre o fim de uma análise, inspirado num poema de Nice Luconi sobre a última sessão e na imagem de Rubem Alves da alma como borboleta, com seu instante de grande metamorfose. Parte da formulação de Jung de que uma pessoa, atuando sobre outra, entra em interação com outro sistema psíquico, numa espécie de ligação química. Percorre o modo como a figura do analista recebe as projeções dos complexos parentais, e como a transferência precisa ser elaborada para libertar os afetos ali contidos — mesmo numa terapia bem-sucedida, algum complexo pode ser constelado justamente na despedida.
A Arte do Registro
Parte da frase de Madalena Freire — quem registra tem memória, quem não registra tem lembranças — para pensar o registro como o que rompe a anestesia de um cotidiano cego e obriga a pensar. Percorre a ideia de que o caminho e o caminhante mudam a cada passagem, e que registrar serve para conhecer e fazer história de quem se é, tanto para o indivíduo quanto para os muitos eus que cada um carrega. Aproxima o gesto de registrar da função transcendente e da experiência descrita por Jung de obras que se impõem ao autor, em que a mão é de certo modo assumida e a pena escreve coisas que a própria mente vê com espanto.
A fé como possível caminho ao encontro do Self
Parte de uma observação sobre as posturas contraditórias que adotamos diante de situações complexas — ora confiantes e esperançosos, ora desanimados e descrentes — oscilação que aparece quando os problemas persistem, no enfrentamento de uma doença ou na dificuldade de contato com quem se estima. Percorre a relação compensatória entre consciente e inconsciente e o surgimento da função transcendente, que só se estabelece quando o ego se permite ser guiado pelo Self, de forma espontânea. Distingue crença de fé: a crença é convicção construída pela experiência, com aspecto racional, emocional e cultural, podendo ser modificada e defendida como ideologia.
O lugar do feminino nas relações de trabalho da sociedade pós-moderna, sob a perspectiva junguiana
Abre com Clarissa Pinkola Estés: quando são cortados os vínculos de uma mulher com sua fonte de origem, seus instintos e ciclos naturais se perdem por subordinação à cultura, ao intelecto ou ao ego. A partir daí volta à história remota para examinar como se naturalizaram as atribuições de homem e mulher no Ocidente, e traz a observação de Jung de que a sociedade espera de cada um o melhor desempenho na tarefa conferida — cada um no seu lugar, um sapateiro, outro poeta, e não ambos. Pergunta que condições o ambiente de trabalho precisa oferecer para que as oscilações próprias do feminino não sejam um problema a corrigir.
Tornar-se analista junguiana: pausa reflexiva sobre esta jornada
Último paper da primeira etapa da formação, escrito como pausa para olhar o percurso — ciente de que ali se conclui apenas parcialmente o que foi proposto, e que vêm pela frente o estudo de caso e a monografia. Situa a psicoterapia como prática regulamentada e observa que a maioria das abordagens trata da adaptação e do aspecto consciente da mente, ao contrário do que se pressupõe na análise. Recolhe a figura de Quíron, o curador ferido, como referência para quem atua na saúde, e a afirmação de Jung de que se deve a Freud a descoberta de que os analistas também têm complexos, e portanto pontos cegos. Chega ao caráter ritual do setting — encontros sigilosos e regulares, no mesmo dia e horário — e à etimologia de religião como relegere, debruçar-se várias vezes.
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