A formação do analista didata: uma jornada contínua
Sobre o Programa de Formação Continuada para Analistas Didatas do IJUSC, cujo primeiro encontro aconteceu em 15 de agosto de 2026.
Hoje aconteceu o primeiro encontro do Programa de Formação Continuada para Analistas Didatas do Instituto Junguiano de Santa Catarina. A frase é curta e o percurso não foi: a proposta levou mais de um ano entre a primeira conversa e esta manhã. Registro isso para enfatizar o que o tempo que um programa leva para nascer costuma dizer sobre o que ele pretende sustentar.
Uma palavra sobre os termos, para quem lê de fora do instituto. A formação junguiana tem etapas. Quem ingressa é candidato e percorre o percurso formativo do instituto. Ao concluí-lo, torna-se membro analista. E o membro analista pode, mais adiante, assumir as funções de formação dentro da instituição — é o analista didata. O programa de que trato aqui se dirige a essa última passagem: como se aprende a formar.
Um título que descreve funções
Analista didata não é uma condecoração por tempo de estrada, embora já tenha sido entendido assim no passado. Analista didata é a designação de quem passa a exercer, além da clínica privada, um conjunto específico de funções dentro do instituto: supervisionar oficialmente os casos dos candidatos em formação, conduzir estudos de caso nos seminários, orientar e avaliar monografias, participar das entrevistas de seleção de novos candidatos.
Cada uma dessas funções pede uma competência que a boa clínica, sozinha, não garante. Conduzir um seminário não é a mesma coisa que conduzir uma sessão. Supervisionar o caso de um colega não é a mesma coisa que atender o próprio. Avaliar um candidato exige uma posição que a prática privada raramente exige de nós — a de quem responde institucionalmente por uma sentença sobre o outro.
Há uma suposição confortável, e que já foi bastante difundida nas instituições de formação, de que essas habilidades chegavam por decantação: analisava-se por tempo suficiente e um dia se estaria apto a ensinar. A experiência mostra outra coisa. Elas se aprendem como quase tudo em nosso ofício — exercendo, sob observação, com espaço para elaboração e treino antes que certos elementos tenham maior custo para um candidato real.
As duas cadeiras
O programa se organiza em torno de uma decisão simples: ninguém ocupa uma cadeira só.
Cada encontro tem duas etapas. Na primeira, um membro analista assume como coordenador de uma discussão de um texto previamente selecionado pela diretoria de ensino, bem como supervisiona e conduz um estudo de caso. Na segunda, outro membro analista apresenta um caso clínico. As funções giram em regime de rodízio ao longo do ciclo, de modo que todos passem pelas duas posições — e, o que talvez importe mais, que todos sejam supervisionados por alguém que, no encontro seguinte, estará sendo supervisionado por eles.
Essa reversibilidade não é um detalhe de logística. Ela desfaz, na prática, a fantasia de que a autoridade didática é um lugar fixo, ocupado por quem já chegou. Quem supervisiona hoje apresenta amanhã. A assimetria existe, é necessária e é temporária.
O didata que quase não fala
Cada encontro conta com a presença de ao menos um analista didata do IJUSC, e a descrição da sua função me parece uma parte delicada do programa: ele permanece em observação durante a maior parte do trabalho, com a menor interferência possível, e reserva suas intervenções, críticas e sínteses para o final — ou para os momentos em que uma questão técnica ou ética não possa esperar.
Pedir a um analista experiente que assista em silêncio é pedir bastante. Mas um mentor que corrige em tempo real transforma o grupo em plateia e esvazia justamente o exercício que o programa existe para proporcionar. O grupo precisa peregrinar o suficiente para ter o que elaborar. A função do didata presente não é impedir o erro; é garantir que ele seja pensado.
Por que continuada
A arquitetura deste programa nasceu em grande parte da minha experiência de formação no Instituto Junguiano do Paraná (IJPR), onde participei de um modelo semelhante e pude constatar, de dentro, o que ele produz. O crédito é devido: o que trago aqui é uma adaptação à realidade do IJUSC, não uma invenção. Instituições junguianas fazem isso entre si há tempo — transmitem-se práticas, e não apenas teoria. Importante destacar ainda que as propostas de implementação de projetos são decididas de forma colegiada, e dialogada com toda a diretoria vigente, aparando arestas e refinando elementos porosos.
O ciclo de rodízio e de discussões é ofertado de forma contínua, mas deve ter a participação por três anos pelo membro. Os encontros são bimestrais, com três horas, e presume entradas e saídas dos membros no percurso, pois novos candidatos vão se tornando membros analistas, e membros analistas vão se tornando didatas. O “final” ocorre quando cumprida a carga horária e exercidas todas as funções, assim o membro estará qualificado para a homologação do título, conforme as normas internas do Instituto e as diretrizes da AJB e da IAAP.
Vale dizer o que essa homologação não significa. Jung observava que, na psicoterapia, o analista está tão implicado no processo quanto o paciente, e que o tratamento o transforma também — o analista não assiste de fora ao que conduz. A formação continuada estende essa observação à vida institucional. O título marca uma etapa cumprida, não um ponto de chegada. Continua-se aprendendo a formar enquanto se forma, e é por isso que o programa se chama continuada.
Hoje foi o primeiro encontro de muitos.
Jayson G. Seibel
Psicólogo clínico e analista didata junguiano · CRP 12/03451
Instituto Junguiano de Santa Catarina — IJUSC
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