A Psicologia Analítica, desenvolvida por Jung, nos mostra um caminho importante e respeitoso para acolher pessoas autistas, que vivenciam o mundo de uma forma singular. Em vez de olhar para o autismo apenas como um conjunto de dificuldades a serem tratadas, a abordagem junguiana nos convida a ver cada pessoa em sua totalidade, com um mundo interno próprio, repleto de imagens, símbolos e sentidos. Neste contexto, conforme Jung, todo ser humano carrega dentro de si um centro organizador chamado de Self, o Si-mesmo, que move o processo de Individuação, ou seja, o caminho que cada pessoa faz para se tornar quem verdadeiramente é. Esse processo acontece de maneira única em cada pessoa.
A linguagem da psique, na visão junguiana, é a linguagem simbólica e imagética do que está no inconsciente e pode ganhar forma e ser comunicada. Esse ponto é especialmente importante no trabalho com pessoas autistas, sendo que algumas delas se expressam melhor por formas não verbais, como o desenho, o movimento, o brincar e o jogo simbólico, do que pela fala convencional.
A grande contribuição da abordagem junguiana é deslocar o foco da dificuldade para a inteireza. A pessoa com autismo não é vista como alguém incompleto, mas com as suas idiossincrasias e como alguém que percorre seu próprio caminho de Individuação. O trabalho terapêutico é o caminho para que esse processo possa se desenvolver, respeitando o ritmo, os interesses e a forma particular de cada um se relacionar com o outro e com o mundo.
No trabalho de grupo, o espaço sagrado e protegido precisa ser, antes de tudo, um ambiente seguro, previsível e acolhedor, onde cada participante possa se sentir acolhido para se expressar sem medo de julgamento. Dentro desse espaço, as práticas de atividade simbólica e não verbal são um recurso valioso para quem se comunica melhor por imagens do que por palavras. Assim, as expressões artísticas, como desenho, pintura, modelagem e colagem, permitem que o mundo interno ganhe forma concreta e possa ser compartilhado com o grupo. Também atividades corporais e rítmicas, como o movimento, a música e o ritmo, ajudam a integrar corpo e psique e a criar um senso de pertencimento entre os participantes.
Nas narrativas de sonhos, histórias e mitos, os personagens simbólicos oferecem imagens que tocam o inconsciente coletivo e concedem linguagem às emoções. O grupo, assim, deixa de ser apenas um treino de habilidades sociais e passa a ser um lugar de encontro humano, onde cada pessoa pode se mostrar e ser vista. Os interesses intensos e particulares, por exemplo, em vez de serem apenas contidos, podem ser compreendidos como expressões legítimas da psique e como pontes valiosas para o contato e a comunicação.
A “sombra” junguiana é formada por partes que, por vezes, são rejeitadas. As pessoas com autismo, muitas vezes, internalizam a rejeição social. O trabalho de integrar a sombra é fundamental. O grupo, na perspectiva junguiana, atua menos como aquele que “conserta” e mais como uma possibilidade que contém, acolhe e acompanha. Sua tarefa é sustentar o espaço seguro, observar os símbolos que surgem e confiar no movimento natural de cada participante em direção ao seu próprio desenvolvimento. É uma postura de escuta atenta, paciência e profundo respeito pela singularidade de cada um.
Neste sentido, trabalhar com grupos de pessoas com autismo na abordagem junguiana é, antes de tudo, um exercício de acolher a diferença como parte da condição humana, que visa à Individuação ao valorizar os símbolos, respeitar o ritmo individual na qual Jung dá base para entender a psique, e oferecer um espaço seguro de expressão a cada participante, rumo à sua própria individualidade, não nos esquecendo de que todo ser humano, à sua maneira, busca dar sentido à sua existência e tornar-se quem se é.
Por fim, o papel social e cultural deveria ser o de auxiliar as pessoas com autismo a perceberem que são diferentes, mas que têm sua viabilidade de ser. O tratamento analítico, grupal e multiprofissional, os métodos de educação adequados à demanda de cada pessoa, atrelados à educação inclusiva e agregados a uma sociedade informada e disponível, ajudariam muito o processo de desenvolvimento do autista, sendo, muitas vezes, desnecessário passar por vivências tão dolorosas para a pessoa autista e sua família.
Amélia de Oliveira Junkes
Psicóloga CRP 12/02135 · Analista Didata · Presidente do Instituto Junguiano de Santa Catarina (IJUSC)
Membro da Associação Junguiana do Brasil (AJB), filiada à International Association for Analytical Psychology (IAAP)
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